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IPós-graduação de
Nutrição e Atividade Física. Instituto de
Nutrição. Universidade do Estado do Rio de
Janeiro
IIDepartamento de Nutrição Social. Instituto de
Nutrição. Universidade do Estado do Rio de
Janeiro. Rua São Francisco Xavier, 524, 12º
andar, sala 12.001, Bloco D. Rio de Janeiro, RJ,
Brasil. CEP: 20.559-900
ABSTRACT
The
benefits of physical activity on the life cycle are recognized but
there is no consensus of physical activity when related to pregnancy.
This article reviews aspects and effects of the practice of physical
activities during pregnancy on non-athletic pregnant women and on
the fetus. Medline and Pubmed were referred to in the period of
1992-2002. Among the benefits, the articles highlights: prevention
and reduction of backaches, pains on hands and feet and
cardiovascular stress, strengthening of pelvic muscles, reduction of
premature deliveries and C-sections, more flexibility and tolerance
to pain, ponderal gain control and increase of the self-esteem in
pregnant women. As for the fetus there was improvement of weight and
nutritional conditions. There were no recommendations of nutritional
needs for non-athletic pregnant women. There was no consensus
related to nutritional needs and the type of physical activities for
pregnant women. Physical exercises in the water were considered more
adequate. There are various counter-indications for exercises during
pregnancy. The conclusion is that regular and moderate physical and
controlled activities in the beginning of pregnancy are beneficial
to mothers and fetuses.
Key words: Motor activity, Exercise, Pregnancy; Embryo and fetal
development
RESUMO
São
reconhecidos os benefícios da prática de atividade física sobre o
ciclo vital, sem consenso quanto à gestação. Este artigo reviu
considerações e efeitos da prática da atividade física durante a
gestação sobre a saúde da gestante não-atleta e o feto. Foram
utilizados os bancos de dados Medline e Pubmed referentes ao período
1992-2002. Dentre os benefícios, os artigos destacam: prevenção e
redução de lombalgias, de dores das mãos e pés e estresse
cardiovascular, fortalecimento da musculatura pélvica, redução de
partos prematuros e cesáreas, maior flexibilidade e tolerância à
dor, controle do ganho ponderal e elevação da auto-estima da
gestante. No feto, observou-se aumento do peso ao nascer e melhoria
da condição nutricional. Não se encontraram recomendações de
necessidades nutricionais para a gestante não-atleta. Não existiu
consenso quanto às necessidades nutricionais e o tipo de atividade
física dessa gestante, sendo o exercício na água o mais indicado.
Porém destacaram-se diversas contra-indicações da prática de
exercícios na gestação. Concluiu-se que a atividade física, sendo
regular, moderada e controlada desde o início da gestação, promove
benefícios para a saúde materna e fetal.
Palavras-chave: Atividade motora, Exercício, Gravidez,
Desenvolvimento embrionário e fetal
Introdução
A
atividade física é definida como qualquer movimento corporal
decorrente de contração muscular, com dispêndio energético acima do
repouso que, em última análise, permite o aumento da força física,
flexibilidade do corpo e maior resistência, com mudanças, seja no
campo da composição corporal ou de performance desportiva.1
A prática de atividade física regular demonstra a opção por um
estilo de vida mais ativo, relacionado ao comportamento humano
voluntário, onde se integram componentes e determinantes de ordem
biológica e psico-sócio-cultural.
Evidências baseadas em estudos epidemiológicos2,3
confirmaram o papel decisivo da prática da atividade física na
promoção da saúde, na qualidade de vida e na prevenção e/ou controle
de diversas doenças. Diretrizes para a promoção de estilos de vida
saudáveis têm sido recomendadas por órgãos envolvidos com a saúde
pública, destacando-se a prática de atividade física regular em todo
o ciclo vital.4 A World Health Organization (WHO)5
estabelece que para prevenir e manejar a atual epidemia global de
obesidade, deve haver a integração da atividade física regular no
cotidiano, acompanhada de melhoria da qualidade de vida e
alimentação.
Privilégio anteriormente do sexo masculino, as mulheres passaram,
recentemente, a representar importante grupo na prática da atividade
física e, embora persistam controvérsias sobre esta prática no
período gestacional, a atividade física vem se integrando de forma
crescente nesse grupo. Em décadas passadas, as gestantes eram
aconselhadas a reduzirem suas atividades e interromperem, até mesmo,
o trabalho ocupacional, especialmente durante os estágios finais da
gestação, acreditando-se que o exercício aumentaria o risco de
trabalho de parto prematuro por meio de estimulação da atividade
uterina.6
No
entanto, em meados da década de 90, o Ame-rican College of
Obstetricians and Gynecologists (ACOG),7 reconheceu que a
prática da atividade física regular no período gestacional, deveria
ser desenvolvida desde que a gestante apresentasse condições
apropriadas. Segundo Artal e Gardin,6 as mudanças na
sociedade quanto aos direitos de cidadania relativos à posição das
mulheres, que se fortaleceram através de movimentos sociais nos anos
sessenta, refletiram-se também na assistência pré-natal, ampliando
as estratégias implementadas no atendimento, o que contribuiu para
que o exercício físico ganhasse ênfase. Todavia, para Gallup,8
ainda são insuficientes até hoje, os trabalhos publicados com
enfoque na prática da atividade física regular durante a gestação
bem como informações sobre a sua indicação.
O
presente trabalho tem por objetivo apresentar, através de revisão de
literatura, considerações levantadas a respeito da prática de
atividade física regular durante a gestação, com enfoque especial
sobre o efeito na saúde da gestante não atleta e no crescimento
fetal. A revisão dos artigos limitou-se ao período de 1992 a 2002,
utilizando-se os termos: exercise, exercise and pregnancy,
physical activity, pregnancy and physical activity. As
publicações foram obtidas nos bancos de dados Medline e Pubmed,
sendo consultados ainda livros didáticos de diferentes períodos,
para esclarecimentos sobre definições de atividade física,
alterações orgânicas durante a gestação e crescimento fetal.
Aspectos nutricionais
Durante a gestação o estado anabólico permanece dinâmico em função
das demandas nutricionais, promovendo ajustes contínuos em relação a
diversos nutrientes e micronutrientes. O ganho de peso que no início
do período gestacional é reduzido comparado à fase final, necessita
ser permanentemente controlado para evitar a ocorrência de
deficiência ou excesso. O ganho de peso em excesso pode expor a
gestante ao desenvolvimento de diversas patologias, tais como
hipertensão arterial, diabetes, obesidade pós-parto, macrossomia
fetal, além de complicações no parto e puerpério.9 A
deficiência do ganho de peso pode trazer prejuízo para o crescimento
e desenvolvimento fetal. No entanto, o ganho de peso insuficiente
extrapola este único aspecto, sendo prejudicial para a tríade
gestante, trabalho de parto e feto, especialmente frente à prática
de atividade física regular.10
Nos
tempos atuais, o controle do ganho de peso gestacional, adquiriu um
"novo conceito" com o impingir social da "estética da magreza". A
preocupação da gestante, quanto ao ganho de peso, divide-se entre o
peso necessário e suficiente que deverá obter sem prejuízo para a
gestação, e o peso que terá após o parto.9 Todavia, vale
lembrar, a dieta de controle para perda ou manutenção de peso não é
indicada nessa fase, mesmo para gestantes obesas, praticantes ou não
de atividade física.9,10
Segundo estudo de Dewey e McCrory,11 ainda não existe
consenso sobre a relação entre o ganho de peso gestacional e a
prática de exercícios físicos. Para Clapp e Little,3 tal
associação foi observada em um estudo longitudinal com 79 mulheres
praticantes de atividade física recreacional, sendo subdivididas em
44 que permaneceram praticando exercícios físicos anterior e durante
a gestação e 35 que reduziram (4) ou cessaram (31) a atividade
quando gestantes. Os autores destacaram que aquelas que praticaram a
atividade física durante o terceiro trimestre de gestação
apresentaram redução na velocidade de ganho de peso com significante
diminuição da gordura localizada, aferida através de cinco dobras
subcutâneas (22 ± 2mm em praticantes e 31 ± 2mm em não praticantes).
O estudo também revelou que as mulheres com melhor nível de educação
e não fumantes foram mais motivadas a manterem dieta balanceada,
iniciando a gestação com o peso adequado e acumulando menos gordura
no último trimestre da gravidez.
Resultado diferenciado foi observado no
estudo descritivo de Horns et al.,12 comparando
primíparas sedentárias (48) e praticantes de atividade física
regular (53) durante o último trimestre de gravidez. Os autores
concluíram que a prática da atividade física não apresentou
significante efeito sobre o ganho de peso materno, mas associou-se
(c2 = 7,45 e p
<0,01) com a redução de edema, cãibra nas pernas e fadiga. Uma
questão metodológica em ambos os estudos refe-re-se à ausência de
relato sobre controle de variáveis que interferem no ganho de peso
gestacional, como estado nutricional da gestante, idade, paridade e
intervalo interpartal, dentre outros.
Todavia, a American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG)7
reconhece que a prática regular de atividade física durante a
gestação parece atuar no controle do ganho de peso nesse período e
no pós-parto, especialmente quando o suprimento nutricional está
adequado. Na mesma linha de interesse sobre o suprimento nutricional
na gestação e a prática de atividade física, King,13
revendo estudos sobre a fisiologia durante a gestação, destacou que
as necessidades calóricas durante a prática de atividade física são
contra-balanceadas através da compensação entre o tempo despendido
na atividade, o tempo de descanso e o gasto energético consumido no
tipo de atividade. Para a autora, o gasto energético está
diretamente relacionado com a proporção em que varia o aumento da
atividade e o aumento do metabolismo basal. Segundo Butterfield e
King,14 esse fenômeno pode apontar para a possibilidade
de uma adaptação fisiológica preservando a energia que já esta sendo
estimulada. No entanto, os autores têm cautela quanto a essa
afirmação e reconhecem a necessidade de que sejam estabelecidas
recomendações nutricionais efetivas para gestantes praticantes de
atividade física. O suprimento nutricional balanceado e adequado
representa o eixo central para a prática de atividade física
regular, durante ou fora do período gestacional.
Embora muito se saiba sobre a nutrição do atleta10 e a
nutrição durante a gravidez,15 ainda são escassos os
estudos integrando os dois aspectos.14 Considerada-se
fundamental que diversos fatores relacionados às necessidades
nutricionais na fase gestacional sejam observados, tais como: idade,
paridade, intervalo interpartal, estado nutricional pré-concepção e
atual, atividade ocupacional, tipo e intensidade do exercício
físico, e fase gestacional dentre outros.10
Para
as mulheres ativas fisicamente mas não-gestantes, as recomendações
de proteína atingem 12% das calorias totais, enquanto para os
lipídios ainda não há consenso, sendo comum empregar-se no máximo
30% do valor energético total. Dietas com baixo teor de lipídios são
inadequadas ao bom rendimento físico. Os carboidratos, utilizados em
forma de glicogênio e glicose, são elementos fundamentais na prática
da atividade física. Sugere-se que a alimentação de uma mulher ativa
fisicamente mas não-gestante, apresente cerca de 60% das calorias
totais em forma de carboidratos,16 garantindo-se ainda, o
suprimento de vitaminas e minerais. A atividade física eleva por
diversas vias a necessidade de alguns micronutrientes. O estresse
metabólico, por exemplo, exige a adequação especialmente de
vitaminas do complexo B,17 sendo indispensável a
suplementação de ácido fólico.18 Recomendações
nutricionais são de extrema utilidade como base para orientações e
avaliações, embora ainda sejam escassos os estudos com gestantes de
países em desenvolvimento.12 O American College of Sports
Medicine, em conjunto ao American Dietetic Association e Dietitians
of Canada,10 consideram que as necessidades nutricionais
serão sempre individuais, estando diretamente relacionadas às
condições de saúde/nutrição e ao tipo de atividade desenvolvida
durante a gestação.
Condições físicas e funcionais da gestante durante a atividade
física
Os
benefícios da prática de atividades físicas durante a gestação são
diversos e atingem diferentes áreas do organismo materno. O
exercício reduz e previne as lombalgias, devido à orientação da
postura correta da gestante frente à hiperlordose que comumente
surge durante a gestação, em função da expansão do útero na cavidade
abdominal e o conseqüente desvio do centro gravitacional. Nestes
casos, o exercício físico contribuirá para adaptação de nova postura
física, refletindo-se em maior habilidade para a gestante durante a
prática da atividade física e do trabalho diário.19
Na
ocorrência de dores nas mãos e membros inferiores, que geralmente
acontece por volta do terceiro trimestre, frente a diminuição da
flexibilidade nas juntas, a prática da atividade física regular
direcionada durante a gestação terá o efeito de minimizá-las,
possivelmente, por promover menor retenção de líquidos no tecido
conectivo.19
Sabe-se que a atividade cardiovascular durante a gestação se eleva
comparada ao período não gestacional. No entanto, com a prática
regular de exercícios físicos reduz-se esse estresse cardiovascular,
o que se reflete, especialmente, em freqüências cardíacas mais
baixas, maior volume sangüíneo em circulação, maior capacidade de
oxigenação, menor pressão arterial, prevenção de trombose e varizes,
e redução do risco de diabetes gestacional.2
Em
gestantes que apresentam diabetes gestacional, a atividade física
pode contribuir para manter os níveis glicêmicos normais. Essa
patologia ocorre, de modo geral, na fase tardia da gestação.2
Todavia, parece que o excesso de peso corporal pode ser um elemento
contrário aos benefícios da atividade física para a gestante.
Segundo Dye et al.,20 que estudaram a prática da
atividade física durante a gestação como forma de prevenção de
diabetes gestacional, somente depois de controlado o efeito do
Índice de Massa Corporal (IMC), foi encontrada associação entre a
prática de atividade física e o não surgimento de diabetes
gestacional (odds ratio = 1,9). Os autores concluíram que o
peso expresso através do IMC foi determinante para o surgimento da
patologia, especialmente quando o IMC superava 33kg/m2.
Em gestantes que apresentaram diabetes gestacional e praticaram
atividade física regular durante todo o período gestacional
observou-se antecipação no trabalho de parto, quando comparadas com
aquelas que interromperam a atividade ao final do segundo semestre.20
A
prática de atividade também trouxe benefícios para gestantes já
portadoras de diabetes mellitus sob controle. Jovanik-Peterson e
Peterson,21 ao estabelecerem um programa baseado na dieta
e atividade física para gestantes diabéticas, afirmaram que embora
ainda seja controversa essa questão, evidências acumuladas na
literatura têm demonstrado que sob controle dietético e de atividade
física, os níveis glicêmicos podem ser mantidos normais, mesmo em
gestantes já diabéticas. Os exercícios físicos praticados durante a
gestação devem ser cuidadosamente observados para esse grupo de
gestantes, especialmente na fase final, uma vez que têm efeito
positivo no amadurecimento cervical e na atividade de contração
uterina.5,21
As
vantagens da atividade física durante a gestação se estendem ainda,
aos aspectos emocionais, contribuindo para que a gestante torne-se
mais auto-confiante e satisfeita com a aparência, eleve a
auto-estima e apresente maior satisfação na prática dos exercícios.19
Trabalho de parto e prematuridade
A
literatura consultada abordou três aspectos principais na relação
entre atividade física e trabalho de parto: risco de parto
prematuro, facilidade do trabalho de parto com melhor recuperação
pós-parto e redução do número de cesáreas.
Acreditava-se que a prática da atividade física durante a gestação
pudesse estimular indiscriminadamente a contração uterina,
promovendo a antecipação do trabalho de parto.5 Todavia,
parece haver consenso de que a prática de atividade física
monitorada durante a gestação não contribui para a prematuridade.22-23
Sternfeld,22 consultando diversos estudos, argumentou que
o efeito da estimulação da noradrenalina, que ocorre com a atividade
física, pode ser neutralizado tanto com o aumento de catecolaminas
nas gestantes, como através dos níveis de catecolaminas fetais que
permanecem estáveis à estimulação da noradrenalina materna,
protegendo o feto do excesso de atividade uterina.
Bishop et al.,24 também são de opinião contrária
ao efeito de prematuridade, acreditando que a atividade física
regular fortalece a musculatura pélvica, sendo mais um fator a
proporcionar nascimentos a termo. Para esse autores, a idade,
paridade e aderência ao programa assistencial são fatores que
desempenham papel decisivo no risco para partos prematuros. Para Dye
e Oldenettel,25 o monitoramento constante das condições
físicas das gestantes durante o desenvolvimento das atividades
físicas regulares, pode cumprir importante papel na determinação da
idade gestacional. Os autores basearam esta afirmativa em estudo
epidemiológico de revisão de lite-ratura desde 1990.
Bungum et al.26 estudando mulheres nulíparas,
observaram que gestantes sedentárias apresentaram risco 4,5 vezes
maior de nascimentos por cesárea do que as gestantes ativas
fisicamente, quando controlada as variáveis idade, tipo de
anestesia, alterações no IMC anterior à gravidez, trabalho de parto
induzido, e o tipo de hospital de nascimento. Os resultados
demonstraram que a participação em exercícios físicos, especialmente
nos dois primeiros trimestres, esteve associada efetivamente ao
menor risco de cesáreas.
Outros aspectos relacionados aos benefícios da atividade física
sobre o trabalho de parto, referem-se às demais alterações
endócrinas ocorridas durante a gravidez, que se refletem nas
articulações e ligamentos pélvicos, promovendo maior flexibilidade.
O aumento de estrogênio contribui para o relaxamento muscular
facilitando o parto, suavizando as cartilagens e elevando o fluído
sinovial com resultados no alargamento das juntas, facilitando a
passagem do feto.8 A atividade física durante a gestação
diminui as dores do parto, contribuindo para que as gestantes
fisicamente ativas tolerem melhor o trabalho de parto,
principalmente os mais prolongados, do que aquelas não treinadas ou
do que aquelas que se exercitavam apenas esporadicamente.19
A
associação do exercício físico durante a gestação e o aborto
espontâneo, foi explicada no estudo de Latka et al.27
como conseqüência do tipo de exercício praticado, que apresentava
características de intensidade moderada. À mesma conclusão chegou
El-Metwalli et al.,28 que através de caso-controle
com 562 gestantes (casos) que tiveram aborto espontâneo e 1.762
gestantes (controles) com gestação à termo. Para os autores, não é a
prática de atividade física regular que se associa à prematuridade,
e sim a intensidade e o excesso de atividade, tanto em forma de
exercícios físicos quanto de atividade ocupacional.
O
estudo desenvolvido por Misra et al.,29 com uma
coorte randomizada de mulheres de baixa renda praticantes de
atividade física, e grupo de comparação constituído por gestantes
atuantes apenas em atividades ocupacionais domésticas, revelou que
as gestantes não praticantes de atividade física apresentaram maior
risco de redução do período gestacional (odds ratio =1,60),
enquanto a prática de exercícios físicos presente no outro grupo de
gestantes foi considerada fator de proteção. A World Health
Organization (WHO)30 já alertou que grávidas trabalhando
com levantamento freqüente de cargas pesadas, ou seja, em atividade
ocupacional intensa, incrementam de 20 a 30% o risco de parto
prematuro.
Atividade física e crescimento fetal
Os
termos crescimento e desenvolvimento referem-se às mudanças que
ocorrem no complexo fisiológico durante a concepção, a embriogênese
e toda a vida fetal. O ambiente materno é decisivo para o
crescimento e o desenvolvimento fetal, podendo influencia-los
positiva ou negativamente. Dentre os principais fatores de risco que
afetam o crescimento fetal destacam-se: primíparas com idade
superior a 35 anos, gestante adolescente, baixa escolaridade e
renda, história de problemas obstétricos, deficiência nutricional,
patologias diversas e dependência química.16 Quanto aos
efeitos de risco ou proteção da prática de atividade física durante
a gestação sobre o crescimento fetal, existem controvérsias,
encontrando-se relato de peso normal, baixo peso e aumento de peso.
Kardel e Kase31 analisando o desenvolvimento e o
crescimento fetal de bebês nascidos de 42 gestantes saudáveis,
subdivididas em dois grupos (intensidade alta e intensidade
moderada), não encontraram qualquer diferença entre os grupos quanto
ao peso de nascimento e a escala de Apgar. Os autores concluíram,
que o estado de saúde e o bom condicionamento das gestantes podem
ter desempenhado papel fundamental para este resultado.
No
estudo de Hatch et al.,32 não foram encontrados
bebês macrossômicos, porém observou-se que as gestantes que se
exercitaram durante todos os três trimestres da gestação, tenderam a
ter bebês com peso maior do que aquelas que eram sedentárias ou as
que iniciaram atividade física já no segundo ou no terceiro
trimestre. Esse estudo de coorte incluiu 800 gestantes sob
assistência pré-natal. Para a análise, os autores, subdividiram o
grupo em três subgrupos: praticantes com intensidade leve/moderada,
praticantes com intensidade alta e não praticantes de atividade
física. Ajustando os dados por idade gestacional e peso ao nascer, o
condicionamento físico anterior à gestação foi altamente relevante
para o bom crescimento fetal, tendo em vista que o grupo de
gestantes que praticaram exercícios de intensidade alta, apresentou
aumento de peso fetal em torno de 300gramas, enquanto aquelas que
não praticaram atividade física, o aumento de peso foi próximo de
100 gramas.
Clapp et al.,33 em estudo experimental
rando-mizado com gestantes não praticantes de atividade física,
subdivididas em um grupo experimental (24 mulheres) com prática de
exercícios de intensidade moderada três a cinco vezes por semana, e
um grupo de comparação (22 mulheres) desenvolvendo algum tipo de
exercício recreacional, concluiram que, efetivamente, o exercício
físico orientado durante toda a gestação, ou parte da mesma, pode
contribuir tanto para o aumento do peso do feto, quanto para sua
percentagem de gordura e circunferência craniana. Os autores
observaram que para esses resultados destacaram-se outros fatores: a
programação dos exercícios sob controle; a adequação dos exercícios
às características morfométricas (medidas corporais) das gestantes e
o aumento do consumo de diversos nutrientes no último trimestre
gestacional.
Em
estudo com 2.828 mulheres residentes em Missouri (Estados Unidos da
América) que tiveram filhos de dezembro de 1989 a março de 1991,
Schramm et al.,34 analisaram a relação entre
prática de exercícios físicos e peso de nascimento. Os resultados
apontaram que a prática de exercícios físicos pode ter desempenhado
função protetora (odds ratio = 0,88), uma vez que estas
mulheres tiveram filhos com peso igual ou superior a 2.500gramas,
dentre os 794 nascidos vivos, contra aquelas que não praticaram
exercícios e tiveram filhos com peso inferior a 1.500gramas, dentre
os 782 nascidos vivos. O estudo excluiu 450 mulheres que tiveram
fetos nascidos mortos. Esse resultado merece ser avaliado
cuidadosamente tendo em vista que se trata de grande amostra e o
intervalo de confiança do odds ratio incluiu a unidade.
Gottlieb35 destacou que as contradições nos resultados
das pesquisas podem ser inerentes às metodologias empregadas,
especialmente no que se refere ao tipo de estudo e ao grupo amostral.
O autor apontou que, por vezes, as pesquisas não apresentaram grupo
de comparação ou os grupos revelavam importantes distinções entre
si, capazes de interferirem nos resultados. Segundo Dye e Oldenettel,25
análises baseadas em grupos especiais, como atletas de elite, podem
ocasionar erro na sua comparação com grupos de gestantes
sedentárias. O cuidado com a metodologia e a análise estatística dos
dados em estudos controlados, permitiria maior segurança nas
conclusões da relação entre a prática da atividade física e a
gestação.
Atividades físicas recomendadas durante a gestação
Ainda não existem recomendações padronizadas de atividade física
durante a gestação. No entanto, frente à ausência de complicações
obstétricas, o American College of Obstetricians and Gynecologists,36
recomendou que a atividade física desenvolvida durante a gestação,
tenha por características exercícios de intensidade regular e
moderada, com o programa voltado para o período gestacional em que
se encontra a mulher, com as atividades centradas nas condições de
saúde da gestante, na experiência em praticar exercícios físicos e
na demonstração de interesse e necessidade da mesma.
Alguns tipos de atividades físicas como exercícios leves na água,
caminhada e bicicleta, já vêm se destacando como prática de
atividade física durante o período gestacional. Para Katz,37
a natação é a mais recomendada para a gestante, devido à propriedade
inerente do corpo na água, isto é, a flutuabilidade. A atividade
física na água é benéfica para os joelhos e geralmente é mais
relaxante que outros tipos de exercícios, especialmente os
exercícios de força como a musculação. A natação, reduz ainda a
freqüência de edema que é um efeito comum na gestação, porém
desconfortável. O efeito da água fria sobre o corpo serve também
como termorregulador, proporcionando ao feto a possibilidade de
maior estabilidade frente à elevação de temperatura e a subsequente
diminuição do suprimento de sangue. A temperatura ideal da água deve
ficar entre 28ºC e 30ºC.37,38
Atividades físicas não recomendadas durante a gestação
Alguns exercícios físicos merecem recomendações especiais sobre o
desenvolvimento de sua prática ou contra-indicação neste período. A
intensidade do exercício deve ser monitorada de acordo com os
sintomas que a gestante apresentar. Esta intensidade se revela
através da demanda sobre o sistema cardiovascular.36 A
relação a seguir apresenta alguns tipos de exercícios físicos e/ou
situações não recomendadas para a prática durante o período
gestacional: a) qualquer atividade competitiva, artes marciais ou
levantamento de peso;6 b) exercícios com movimentos
repentinos ou de saltos, que podem levar a lesão articular;6
c) flexão ou extensão profunda deve ser evitada pois os tecidos
conjuntivos já apresentam frouxidão;6 exercícios
exaustivos e/ou que necessitam de equilíbrio principalmente no
terceiro trimestre;39 d) basquetebol e qualquer outro
tipo de jogo com bolas que possam causar trauma abdominal;39
e) pratica de mergulho (condições hiperbáricas levam a risco de
embolia fetal quando ocorre a des-compressão;39 f)
qualquer tipo de ginástica aeróbica, corrida ou atividades em
elevada altitude são contra-indicadas ou, excepcionalmente aceitas
com limitações, dependendo das condições físicas da gestante;40
g) exercícios na posição supino após o terceiro trimestre podem
resultar em obstrução do retorno venoso.25
Contra-indicações de saúde para prática de atividade física durante
a gestação
Alguns sinais ou sintomas representam sinal de perigo de
complicações na gestação durante a prática de atividade física e
indicam que o exercício deve ser imediatamente interrompido por
constituirem grande risco para a saúde tanto da gestante e quanto do
feto. Os principais sinais de que a atividade física deve cessar
são: perda de líquido aminiótico, dor no peito, sangramento vaginal,
enxaqueca, dispnéia, edema, dor nas costas, náuseas, dor abdominal,
contrações uterinas, fraquezas musculares e tontura, redução dos
movimentos do feto.25
Mulheres fumantes têm contra-indicação na prática de atividade
física em altitudes acima de 2.500m.38,39 A presença de
náuseas, sonolência e desconforto, podem sugerir que o tipo,
intensidade, duração e/ou freqüência da atividade física para a
gestante devam ser modificados, sem que seja necessário
interrompe-la.8 A própria prática de atividade física
durante a gestação possibilita a ocorrência de fenômenos que devem
alertar os especialistas para uma eventual interrupção dos
exercícios. Tais sinais correspondem a: dor de qualquer tipo,
injúrias musculo-esqueléticas; complicações cardiovasculares;
trabalho de parto prematuro; aumento do risco de aborto no primeiro
trimestre da gestação e grave hipoglicemia, indicando, igualmente, a
interrupção do exercício.36
A
atividade física para gestantes apresenta contra-indicação absoluta
em mulheres portadoras de: doença cardíaca com alterações
hemodinâmicas significativas, doença pulmonar restritiva, multípara
com risco de prematuridade, placenta prévia depois de 26 semanas de
gestação, ruptura de membranas, sangramento uterino persistente no
segundo ou terceiro trimestre, cervix incompetente e pré-eclâmpsia.34
Considera-se como contra-indicação relativa à prática de exercícios
aeróbicos durante a gestação, a presença das seguintes patologias:
anemia, arritmia cardíaca materna, diabetes Mellitus tipo I não
controlada, bronquite crônica, obesidade mórbida, baixo peso com
Índice de Massa Corporal inferior a 12, estilo de vida extremamente
sedentário, retardo no crescimento intra-uterino na gestação atual,
hiper-tensão mal controlada, limitações ortopédicas, taba-gismo e
hipertireoidismo não controlado.36
Conclusões
Embora já se reconheça a contribuição da prática da atividade física
regular e orientada durante a gestação, ainda não existe consenso no
estabelecimento da conduta ideal para essa prática. Não se encontrou
na literatura revista, qualquer tipo de padronização de atividade
recomendada por órgãos especializados. Cada autor estabeleceu o tipo
de atividade de inte-resse no estudo, sua duração, intensidade e
freqüência, dificultando assim a comparação dos resultados
encontrados nos diferentes artigos. Todavia, tendo por base a
revisão, concluiu-se que quando indicada, a prática de atividade
física regular, moderada, controlada e orientada pode produzir
efeitos benéficos sobre a saúde da gestante e do feto.
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