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Suas obras aliam a informação científica a uma
linguagem simples e profundamente sensível, constituindo uma rica
contribuição à discussão da humanização da assistência ao parto.
O
renascimento do parto é um livro da década de 1980, em que ele
relata sua experiência como diretor de uma maternidade a 100
quilômetros de Paris. Descreve sua aprendizagem com as mulheres e as
parteiras sobre a psicofisiologia do parto, provavelmente, como ele
diz, por não ter passado por uma formação em obstetrícia. Seus
princípios de "simplificação e eliminação de procedimentos
desnecessários" da sua abordagem como cirurgião o nortearam em todo
seu caminho como obstetra.
A observação da busca espontânea das
mulheres pela posição vertical no momento da expulsão levou-o a
questionar o uso da mesa obstétrica, com a conseqüente passividade
da mulher, e as dificuldades provocadas pelo parto horizontal. A
construção de uma sala com uma cama larga e baixa, com cores quentes
nas paredes, pouca luz, privacidade e silêncio, constituiu o que
chamou de o "primeiro passo concreto para devolver o parto às
mulheres".
Nessas condições elas poderiam se sentir livres física e
emocionalmente para agir e se movimentarem. Com o objetivo de
promover o relaxamento e a entrega emocional das mulheres nesse
período, surgiu o parto na água, sem que este fosse o objetivo, mas
uma conseqüência do respeito ao desejo de as mulheres permanecerem
na piscina na hora da expulsão do bebê. Todas as ações estavam
inseridas em um ambiente institucional receptivo, afetivo e
facilitador da intimidade entre a clientela e a equipe.
O livro é
recheado de depoimentos e fotos calorosas de cenas de parto que nos
emocionam e nos estimulam a propiciar essa experiência a todas as
mulheres. Nessas condições, o autor evidencia como a mulher tem
capacidade de parir se não atrapalharmos sua vivência.
Torna claro
como o ambiente ajuda a mulher a criar a própria ocitocina e
endorfinas necessárias nesse processo. Desenvolve uma análise sobre
como a estimulação química das contrações, a episiotomia, a
analgesia, a obrigação de ficar na posição deitada, a amniotomia, o
uso da palavra "Força!" e até mesmo o treinamento de específicas
respirações atrapalham a fisiologia do parto e a espontaneidade da
mulher. Desmistifica ainda a idéia de que o parto de cócoras e na
água sejam apenas voltados para as mulheres consideradas de baixo
risco.
Para
que a parturiente possa entrar em contato consigo mesma, condição
necessária para o bom transcurso do parto, quem a estiver assistindo
precisa exercitar também o contato consigo mesma/o. Esse é um belo
ensinamento que Michel Odent oferece não só para o trabalho com o
parto mas também para as diversas relações de cuidado com o ser
humano, tais como as psicoterapias e diversas terapêuticas
corporais. Odent é claro defensor de que a assistência ao parto seja
realizada por parteiras, questão polêmica, entendendo que elas estão
mais qualificadas emocionalmente para lidarem com a intensidade da
experiência da mulher nesse momento e serem menos intervencionistas
que os médicos.
A
compreensão do parto como parte integrante da vida sexual e
emocional da mulher proposta em O renascimento do parto é
aprofundada em A cientificação do amor, obra datada do ano
2000. Neste livro, com uma abordagem profunda e interdisciplinar da
vinculação amorosa, apresenta a compreensão das bases fisiológicas e
a integração entre diferentes momentos da vida: o sexo, o parto, a
amamentação e o amor romântico.
Com uma linguagem simples, mas com
riqueza de referências científicas, esta obra reflete em parte seu
trabalho no Primal Health Research Center,1
em que são apresentadas pesquisas sobre a relação entre os diversos
distúrbios emocionais (suicídio, anorexia, violência, drogadicção,
autismo e esquizofrenia) e a ocorrência de perturbações no período
primal, compreendido desde a vida intra-uterina até o primeiro ano
de vida. Sua hipótese é a de que o cuidado com a forma como nascemos
e com a vinculação amorosa mãe-bebê pode propiciar a construção de
uma sociedade mais amorosa, menos destrutiva e de mais respeito
pelos seres humanos e pela natureza. Propõe uma compreensão
holística do nascimento, mostrando as relações entre os estados
orgásticos, o parto, as diferentes formas de amor, a oração e as
emoções místicas.
O contato das mulheres consigo mesmas durante o
processo do parto é fundamental. Nessa situação, as funções
intelectuais neocorticais devem estar colocadas em segundo plano,
facilitando a expressão de funções cerebrais mais instintivas,
características do parto e do aleitamento. Observa como as mulheres
costumam entrar em estado especial de consciência, similar às
emoções místicas e ao orgasmo.
Através de uma integração dos conhecimentos, indica uma
possibilidade de reconexão do homem com as diversas partes de si
mesmo. Nesse sentido, Odent atravessa diferentes temas, sempre na
busca da compreensão do que seria mais fisiológico na forma humana
de amar e de nascer. Passa pela atração dos seres humanos pela água
dentro da história evolutiva da nossa espécie, explicando como ela
facilita o parto e a lactação; discute o nascimento de Jesus como
modelo de encontro mãebebê e aprofunda a discussão sobre a
recuperação da natureza biológica do nascimento. Nessa nova edição
apresenta ainda uma discussão sobre os distúrbios clínicos na
gravidez, entendidos como conflitos na fisiologia da mãe e do bebê.
Sua
obra traz uma grande contribuição para o encontro da mulher com sua
corporalidade, diminuindo a dissociação corpomente tão incrementada
na nossa cultura. Traz o desafio de compreendermos o biológico sem
dissociá-lo dos elementos culturais da formação das famílias. Nesse
sentido, devemos refletir sobre suas atuais colocações2
a respeito dos possíveis prejuízos da participação do pai do bebê no
nascimento. Apesar de ter sido tão estimulador dessa prática,
apresentando várias fotos de pais apoiando as mulheres em O
renascimento do parto, hoje ele discute que a presença do pai ou
uma acompanhante pode prejudicar o processo de introspeção e entrega
emocional da mulher. Buscando preservar a entrega da mulher ao
parto, refere-se ao estímulo das funções intelectuais do néocortex
com a presença de observador que coloque palavras e atitudes
inadequadas.
Apesar de reconhecer que os maridos sejam a referência
emocional das mulheres nas famílias nucleares urbanas, Odent não
considera que os homens, segundo sua observação nos partos, teriam
condições de acompanhar a experiência profunda de uma mulher em
trabalho de parto. Exemplifica para a sua discussão o parto de
animais e de seres humanos em diferentes culturas em que os machos
são excluídos. Suas palavras nos remetem a uma compreensão
essencialista de gênero, pautada no modelo de masculinidade
hegemônica, em que os homens não teriam sensibilidade e afetividade
para acompanhar a vivência das mulheres, e em que caberia apenas a
elas o cuidado com as crianças. Nessa discussão, não podemos nos
esquecer do envolvimento dos fatores psicossociais presentes em cada
experiência humana.
As pesquisas com pais participantes do parto3
revelam o valor do suporte emocional que eles podem oferecer às
mulheres, já que o pai costuma ser a única pessoa presente na sala
de parto voltada exclusivamente para atenção ao estado emocional da
gestante. Além disso, a participação dos pais possibilita o
compartilhamento do nascimento pelo casal em um período de crise com
a chegada de um filho e o exercício da solidariedade entre homens e
mulheres. Oferece ainda a oportunidade para a formação de vínculos
paisbebês, propiciando uma experiência importante de uma paternidade
afetiva na construção de novos modelos para a masculinidade.4
Considerando a presente luta pelo direito da mulher de escolha de
seu/sua acompanhante no parto, a reflexão sobre o questionamento
proposto por Odent indica a importância de que os/as acompanhantes
sejam preparados com informações e sensibilização para a
experiência. Além disso, as equipes obstétricas e pediátricas
precisam ser treinadas para lidar com a família e a profundidade
emocional do nascimento. A colocação dessa questão por Odent nos
remete ao desafio para a sua proposta de abordagem ecológica do
nascimento em que a aliança entre cultura e natureza deverá estar
sempre presente.
Odent é um cientista revolucionário e um visionário da construção do
que ele chama de era do Homo ecologicus, em que o cuidado com
a vinculação entre a mãe e o bebê no período em torno do nascimento
possibilitará o desenvolvimento de uma sociedade voltada para o
amor, onde o respeito ao outro e à natureza estejam presentes. A
leitura de suas obras, sem dúvida alguma, é um grande estímulo para
que cada um de nós, profissionais, mães e pais, receba as próximas
gerações com mais amor.
1
Ver
http://primalhealth.com.
2
Esse questionamento sobre a participação dos pais no parto está
presente em A cientificação do amor, no prefácio da segunda
edição americana de O renascimento do parto e no artigo Is
the Participation of the Father Prejudicial to the Birth?,
publicado na Internet em
http://wwwçmidwiferytoday.com/fathers/waterfamily,
em 18 de abril de 2001.
3
BERTSCH T. D., NAGASHIMA-WHALEN, L., DYKEMAN, W., KENNELL J. H., and
MACGRATH, S. "Labor Support by First-Time Fathers: Direct
Observations with a Comparison to Experienced Doulas". Journal of
Psychosomatic Obstetric Ginaecology, II, 1990, 251-260.
CARVALHO, Maria Luiza Mello de. A participação do pai no
nascimento da criança: as famílias e os desafios institucionais em
uma maternidade pública. 2001. Dissertação (Mestrado em
Psicossociologia de Comunidades e Ecologia Social) - Universidade
Federal do Rio de Janeiro.
4
CARVALHO, 2001. O renascimento do parto.
ODENT, Michel.
Florianópolis: Saint Germain, 2002.
134 p.
A
cientificação do amor.
ODENT, Michel.
Florianópolis: Saint Germain, 2002.
142 p.
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