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Watsu na Fibromialgia(*)

      Watsu in Fibromyalgia

     Tatiane Thaís Ramalho (¹), Ivaldo Esteves Júnior (²), Paulo Cardozo de Mello Boccuzzi (3)

      *  Trabalho de Conclusão do curso de Fisioterapia da Universidade Paulista.

 

 
 

1. Graduando em Fisioterapia na Universidade Paulista e Watsu Terapeuta nível II.

2. Mestre em Ciências Básicas em Cirurgias Plásticas e professor da Universidade Paulista.

3. Graduado em Educação Física na Universidade Paulista e Watsu Terapeuta nível II.

     RESUMO – Objetivo: Investigar os efeitos da técnica Watsu na qualidade de vida, sendo avaliado por um questionário genérico SF 36, em pacientes portadores da síndrome da fibromialgia. Métodos: seis pessoas com diagnóstico de fibromialgia do sexo feminino e com idade entre 15 e 60 anos foram submetidos ao questionário e, posteriormente, receberam 4 sessões de Watsu , 1 vez por semana com 1 hora de duração. Após o término do tratamento, os pacientes responderam novamente ao questionário SF 36. Resultados: dos seis pacientes, cinco relataram melhora na capacidade funcional, sendo que uma delas começou a trabalhar durante o tratamento relatando cansaço. Nos aspectos físicos e dor, todos os pacientes obtiveram melhora. Conclusão:

A técnica de Watsu foi eficaz em melhorar a qualidade de vida em pacientes com fibromialgia.

    DESCRITORES: fibromialgia, qualidade de vida, Watsu, hidroterapia.

 

   SUMMARY – Objective: to investigate all the effects of watsu`s techniques with relation to the quality of life, by evaluating patients with Fibromyalgia`s Syndrome through the generic questionnaire SF-36. Methods: 6 female with diagnosis of fibromyalgia, age between 15 to 60 years old, were evaluated by the questionnaire, afterwards they received 4 watsu sessions, once a week, one hour each session. After the treatment, all pacients have answered the same questionnaire (SF-36). Results: 5 mentioned that their funtional capacity had improved, being that one of the members had restarted to work during the treatment, reporting that had presented some tireness. Taking into account physical aspects and ache, all the patients reported that they have improved in general. Conclusion: watsu`s techniques were an effcient therapy in improving the quality of life for people with this type of syndrome.

    KEYWORDS: fibromyalgia, quality of life, watsu, hydrotherapy.

   INTRODUÇÃO

    Já se passaram mais de 150 anos desde que temas relacionados a “Fibromialgia” foram abordados pela primeira vez. Os relatos apresentavam pacientes com reumatismo e presença de pontos endurecidos na musculatura, os quais eram dolorosos à pressão. O primeiro nome dado a esta patologia foi “fibrosite”, em 1904 (1). Ainda mais antigo que estes relatos é a estreita relação do homem com a água, se pensarmos que o homem é um ser mamífero, gerado em meio liquido, ou ainda, que possui 80 % da mesma em seu corpo. Portanto, constata-se que o elemento água, principal agente facilitador da técnica Watsu tem uma relação existencial ao ser humano.

    Watsu ( water shiatsu ) não é uma simples técnica de massagem na água. Essa terapia física e psicológica melhora a flexibilidade e mobilidade dos tecidos através de massagem, alongamentos e  mobilização rítmica desenvolvida em água aquecida à 35 graus, possibilitando a diminuição do tônus muscular, conseqüentemente um relaxamento físico e psicológico.  

    A água  aquecida e a sustentação continua proporcionada por ela são ideais para soltar a musculatura. Tira-se a sobrecarga da  estrutura óssea e há o relaxamento dos músculos. A circulação não é mais restrita pela contração e pode, então, conduzir os metabólitos deixados nos músculos, reduzindo assim a dor e a fadiga. Os estados sem peso causam uma redução da necessidade de oxigênio, ajudando a acalmar a respiração(2).

    A Síndrome da Fibromialgia é uma forma freqüente de dor muscular e cansaço que afeta aproximadamente 5 milhões de americanos(3). No Brasil, ainda não existe levantamento oficial, mas estima-se que 5 % da população possa desenvolver esta síndrome(4). Embora possa surgir em qualquer idade ou sexo, o pico de incidência está entre 35 e 45, predominantemente em mulheres(5).

    Na fibromialgia, ocorre um desequilíbrio entre os neurotransmissores: substância P e serotonina. A primeira é um mediador químico que inicia o processo da dor. Níveis normais da substância P, junto com a serotonina, reduzem ou mantém normal a percepção da dor, enquanto que a substância P sozinha tende a amplificar o sinal da dor. Em outras palavras, o desequilíbrio destes neurotransmissores causa uma percepção da intensidade da dor quimicamente alterada(6).

     Na década de 70 foi observado nos portadores de fibromialgia, que em algumas regiões do corpo o quadro doloroso era maior, estas regiões foram designadas como “tender points”. Durante as sessões da técnica de watsu, as regiões chamadas de tender points são alongadas e massageadas, objetivando o relaxamento.

     Por estar diretamente associada a rigidez articular, a fadiga e ao distúrbio do sono, acredita-se que as características sintomáticas da Fibromialgia seriam suavemente melhoradas através da massagem, alongamentos e movimentos de estímulo respiratório executados na técnica de watsu(1).

     Qualidade de vida relacionada com a saúde é um conceito centrado na avaliação subjetiva do paciente, mas necessariamente ligado ao impacto do estado de saúde sobre a capacidade do indivíduo de viver plenamente.

     A Fibromialgia, por sua vez, traz ao paciente alterações na qualidade de vida como: instabilidade emocional, fadiga física e psíquica, cansaço e estresse, mal estar geral, fraqueza muscular, dor muscular ao esforço, distúrbios do sono, cefaléia, depressão, ansiedade, irritabilidade e diminuição da atividade sexual. Contudo, o relaxamento proporcionado pelo Watsu nesses pacientes poderá contribuir para a melhora em suas atividades de vida diária.

     OBJETIVOS

      O objetivo do presente trabalho é investigar os efeitos da técnica Watsu na qualidade de vida, sendo avaliado por um questionário genérico SF-36, em pacientes portadores da Síndrome da Fibromialgia

     Materiais e Métodos

   Este trabalho utilizou 6 pessoas com diagnóstico de fibromialgia, segundo os critérios de classificação do Colégio Americano de Reumatologia (ACR), do sexo feminino, com idade entre 15 e 60 anos, após o preenchimento do termo de consentimento.

    Estes foram submetidos ao questionário genérico de qualidade de vida SF-36 e, posteriormente receberam 4 sessões de Watsu, 1 vez por semana com 1 hora de duração.

     As pessoas que receberam o tratamento estavam trajadas com maiô e sem touca.

   O tratamento foi realizado em piscina de 1,20m de profundidade, aquecida entre 33ºC a 35ºC, utilizando flutuadores e tampões de ouvido, se necessário.

    Para este estudo, foi aplicado a seqüência de manobras do watsu I, seguindo as etapas impostas pelo criador da técnica “Harold Dull”. As manobras foram modificadas de acordo com cada paciente dependendo de sua limitação, flexibilidade e relação com a água, porém, mantendo o mesmo objetivo.

    Após o término do tratamento, os pacientes foram submetidos novamente ao questionário SF-36.

 

    Avaliação da Qualidade de Vida

    O instrumento utilizado no presente trabalho foi o Medical Outcomes Study 36 – Item Short Form Health Survey (SF-36). O SF-36 é um questionário genérico, traduzido e validado para a lingua portuguesa por Ciconelli et al.(7), composto por 36 itens, que se dividem por 8 tópicos (quadro 1), com o resultado variando de 0 a 100, sendo 0 o pior estado geral de saúde e 100 o melhor estado de saúde(8,9).

    Neste estudo, os pacientes foram avaliados sobre 3 tópicos do SF-36, capacidade funcional, aspectos físicos e dor. Posteriormente ao tratamento, os pacientes foram reavaliados sob os mesmos critérios, estabelecendo-se dados comparativos importantes para se saber os efeitos que a técnica pode proporcionar. Paralelamente ao SF-36,  foi utilizado um questionário desenvolvido pelo autor, objetivando enriquecer o dados da pesquisa.   

Quadro 1- Índices do SF-36

Capacidade Funcional

CF

Limitação na realização de alguma atividade física devido a saúde.

Aspectos Físicos

AF

Problemas com o trabalho ou atividades de vida diária devido a problemas de saúde.

Dor

Dor

Limitações devido a dor.

Estado Geral de Saúde

Egs

Percepção de saúde (ruim - excelente).

Vitalidade

VT

Percepção do nível de vitalidade.

Aspectos Sociais

AS

Interferência de problemas físicos ou emocionais nas atividades sociais.

Aspectos Emocionais

AE

Interferência de problemas emocionais com o trabalho ou outras atividades.

Saúde Mental

SM

Percepção da saúde mental.

                      Fonte: Brown et al(10).

 

      RESULTADOS

 

Quadro 2 – Capacidade Funcional

Pacientes

Antes

Depois

1

16

24

2

18

22

3

21

23

4

16

22

5

21

26

6

26

21

 

 

Quadro 3 – Aspectos Físicos

Pacientes

Antes

Depois

1

4

6

2

4

6

3

4

6

4

6

7

5

4

6

6

5

8

 

 

 

Quadro 4 – Dor

Pacientes

Antes

Depois

1

6

8

2

5

7

3

6

7

4

6

8

5

2

9

6

4

7

 

     DISCUSSÃO

     A fibromialgia é uma enfermidade muito freqüente, e embora não haja alterações orgânicas, causa sofrimento e diminuição importante da qualidade de vida dos pacientes e provavelmente dos seus familiares. Apesar de alguns avanços no conhecimento sobre a síndrome, ainda não temos um esquema terapêutico com grande eficácia. O fundamental no tratamento é o de educar e informar o paciente, deixando claro que a fibromialgia não será curada, mas os sintomas poderão ser controlados(11). De um modo geral, o tratamento deve ter abordagem multidisciplinar para se obter o máximo de sucesso.

   O controle das condições dolorosas constitui um sério problema clínico que desafia a maioria dos fisioterapeutas, surgindo estudos relacionados ao tratamento desta síndrome.

     Os estudos demonstram que a TENS na fibromialgia tem um objetivo primário de alívio da dor, porém em 1999, Feldman(12) mencionou que o tratamento da fibromialgia é sintomático, mas seu objetivo deve ser a melhora da qualidade de vida em um sentido mais amplo e não somente a supressão da dor.

    Neste presente estudo, o quadro 2 mostra que 5 dos 6 pacientes relataram melhora na capacidade funcional, sendo que uma das pacientes começou a trabalhar durante o tratamento relatando cansaço. Nos quadros 3 e 4, todos os pacientes obtiveram melhora nos aspectos físicos e na dor.

    Quando realizamos o tratamento com Watsu, observamos uma melhora significativa na dor provocada pela analgesia proporcionada pela água aquecida. Somado a este beneficio, a técnica promove uma melhora nos aspectos emocionais (depressão, ansiedade, irritabilidade e variação de humor), aspectos físicos (fadiga muscular, rigidez articular, parestesia) e mal estar geral.

    O exercício físico também traz efeitos positivos na fibromialgia, porém, nenhuma mudança estatisticamente significante foi vista em relação ao número de tender points. No treinamento resistido, houve melhora em relação à dor generalizada, qualidade do sono, capacidade funcional, fadiga, depressão e humor(13).

    Indivíduos que sofrem de uma dor debilitante ou limitação crônica, freqüentemente sentem depressão e ansiedade, e conseqüentemente, mais dor. Entretanto, não está claro se a dor é causa ou conseqüência dessa patologia. Estudos sugerem que, embora fatores psiquiátricos possam ocasionar alguns casos de fibromialgia, é pouco provável que sejam a principal causa da doença(3). De qualquer forma, a técnica Watsu tem um raio de ação terapêutico que abrange uma melhora tanto no quadro doloroso quanto nos estados alterados de depressão e ansiedade. E talvez, este seja o maior diferencial da técnica, frente aos outros métodos de tratamento.     

 

      CONCLUSÃO

      A técnica de Watsu foi eficaz em melhorar a qualidade de vida em pacientes com fibromialgia.

 

     REFERÊNCIAS

 

1.           Moreira C, Carvalho MAP: Reumatologia Diagnóstico e Tratamento, 2.ª ed, São Paulo, Editora Médica e Científica:247-60, 1999.

              Dull H : Watsu: exercícios para o corpo na água, 1.ª ed, São Paulo, Editora Summus, 2001.

3.          Russell I.J : Fibromyalgia syndromes. Phys. Med. Rehabil. Clin. N. Am., v.8, p. 213-26, 1997.

4.          Arthritis Foundation. Fibromialgia. Trad. de Rejane Leal Araújo. São Paulo: Sociedade Brasileira de Reumatologia: Apsen .

              Junior C.V, Mendonça M.R.S: Fibromialgia. Quando tudo dói..., Rev Fisioter, v.5, n.27, p.12, jun/jul, 2001.

6.            Bates A, Hanson N: Exercícios Aquáticos Terapêuticos, 1.ª ed, São Paulo, Editora Manole, 1998.

7.          Ciconelli R.M, Ferraz M.B, Santos W, Meinão I, Quaresma M.R: Tradução para a língua portuguesa e validação do questionário genérico de avaliação de qualidade de vida SF-36 (Brasil SF-36). Ver. Bras. Reumatol., v.39, p.143-50, 1999.

8.           Ware J.E: Comments on the use of health status assesment in clinical settings. Med. Care, v.30, p.MS205- MS209, 1992.

9.          Ware J.E, Kosinski M, Keller E.D: The SF-36 physical and mental health summary scales: a user’s manual. Boston: The health Institute, 1994.

            Brown N, Melville M, Gray D, Young T, Munro J, Skene A.M, Hampton J.R, Quality of life four years after acute myocardial infarction: short form 36 scores compared with a normal population. Heart, v.81, p.352-8, 1999. 

11.         Haun M.V.A, Heymann R.E, Hefenstein M, Feldman D: Fibromialgia/tratamento da fibromialgia. Rev. Bras. Med, 2000.

12.          Feldman D: Fibromialgia: aspectos clínicos. Ver. Fisioter. Univ. São Paulo, v.6, p.33, 1999.

          Hakkinen A et al: Strength training induced adaptations in neuromuscular function of premenopausal women with fibromyalgia: comparison with healthy women, Ann Rheum Dis. V.60, n.1, p.21-6, 2001.