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Trabalhando com o medo.

 O que é o medo?

   Como terapeutas de Watsu, encontramos clientes que tencionam seus músculos e travam suas articulações.

Eles podem aparentar timidez ou apreensão. Para trabalhar com estes clientes precisamos entender um pouco de medo

 

 

    . Como em uma dor física, o medo é um indicador de desequilíbrio na psique. Onde existe afastamento, onde a confiança foi perdida, há medo. É importante prestar atenção no medo porque ele distorce nossa relação com a vida, nos enfraquece, contrai nossa consciência e limita nosso amor.

   O medo se torna mais poderoso do que nós, ameaçando nossa existência.

   É algo a ser evitado, uma sombra invisível que não ousamos contemplar. O medo pertence a uma parte de nós que ainda não está clara. Entretanto, chega o momento em que escolhemos contempla-lo para aprofundar e desintegra-lo na ilusão.

 

      Vício e medo

    No padrão inconsciente de neurose, uma pessoa recria uma situação não resolvida do passado na esperança de cura. Esta luta neurótica é apenas simbólica, sem estar ciente dos sentimentos negados ao acesso da consciência, que se experimentado, devolveria a integridade. Na infância, nós trancamos com chave nosso ser. Nós somos um mistério para nós mesmos, apenas porque levantamos uma parede obscura e protetora ao redor de nossa vulnerabilidade. Ao invés de acordar e desguarnecer a parede, o neurótico sonâmbulo procura substituto. A realidade da dor psíquica, com sua capa de medo protetor, fica em apuros com a paralisante previsão de vício em seus milhares de roupagens. O vício levado pelo medo é o paliativo que mantém a catastrófica verdade em apuros. Mesmo assim, é a verdade que nos liberta.

 

        Por que somos levados pelo medo?

       A alma deseja liberdade. Ela procura expansão, mas ao fazer isto deve enfrentar “apertos”. Este é o confronto com o eu. O que a alma procura, a personalidade humana pode se rebelar contra. Mesmo assim, o curandeiro interno sente que nossa salvação está no nosso terror, que o medo que imaginamos ter de baleias, alturas, monstros ou aranhas, para citar alguns exemplos, na realidade, oferece o caminho para uma consciência maior. O medo, portanto, representa a arma do crescimento. O guerreiro interno faz a escolha consciente de andar em direção ao que representa o medo.

 

        Além da palavra

      O Watsu com um cliente com medo exige mais sensibilidade, paciência e compaixão do que normalmente. O grau de movimentos permitidos pode não lhe satisfazer e os resultados não são sempre evidentes. Mas, o cliente pode ter feito um movimento interno que se continuar durante mais cinco, dez ou vinte sessões resultará em uma mudança física. A conscientização precede a mudança. Certa vez uma cliente me falou antes da sua sessão: “Eu sei relaxar”. Seu corpo permaneceu tenso durante toda a sessão. Quando terminou ela disse: “Eu estava em transe o tempo todo”. Como eu poderia julgar a experiência dela? Eu senti que minha única responsabilidade em relação a ela era sugerir que possivelmente existisse um nível mais profundo de relaxamento esperando por ela. O papel do terapeuta de Watsu é criar o espaço, deixa-lo aberto e esperar, sem expectativa.

      O que podemos aprender quando trabalhamos com uma pessoa evidentemente com medo? Eles servem como espelho, nos lembrando de perguntarmos a nós mesmos que áreas de nossas vidas estão bloqueadas e com medo. Onde demoro mais a aprender? Existe algum passo na minha vida que hesito em dar?

     Nós aprendemos a respeitar as limitações dos outros e, em conseqüência, aceitar nossos próprios limites. De que outra maneira os julgamentos desaparecem se não paramos de julgar os outros?

  

        Vida externa como um retrato da interna

       Nossos pensamentos, emoções e crenças são energias vivas que, acima de certos limiares, viram experiências externas. Este pode ser um processo consciente, mas com freqüência é inconsciente. Deste modo, nós magnetizamos as pessoas, os lugares e os acontecimentos que retratam nossa paisagem interna, incluindo nossos medos, bloqueios e resistências. Nossa vida externa é um retrato detalhado de nosso eu interior, um espelho no qual podemos nos contemplar. Quando cuidadosos, nós reconhecemos as situações que não só ocasionam o medo, mas também fornecem um cenário para trabalharmos através deles. A ponte para ser atravessada nos aguarda; o desafio sobrevive intacto a décadas, hermeticamente preservado até que esteja pronto.

 

         O espaço curativo do Watsu

     O bom Watsu é aquele em que o medo vem à tona e é experimentado. E vamos deixar claro que o Watsu atrai aqueles que têm medo do que ele oferece: amor incondicional, toque que alimenta, o abraço caloroso, libertação, paz e descanso. Tudo isto, pode estar tão em falta na vida, que quando experimentado tão efemeramente atravessa a armadura e derruba as defesas. Mesmo assim, a torre caindo no mar não precisa ser traumática. A desintegração e o renascimento podem ser calmos. Mesmo o Watsu desencadeando os sentimentos mais devastadores, simultaneamente, dá segurança e espaço para eles. O fluir suave e progressivo, que é da natureza do Watsu, permite que nosso parceiro “vá se movendo” através de seus medos. Deixe-nos acreditar que na imagem do abraço de um compassivo terapeuta e da água aquecida, nos fazendo lembrar o útero materno, todas as coisas sejam possíveis.

 

         A tempestade escondida

        Muitos em nossa cultura funcionam como um furacão ao inverso: uma calma externa envolve e encobre um turbilhão interno. Somente ao penetrar no turbulento olho da tempestade, é que encontramos a verdadeira beleza da identidade autêntica. O medo se manifesta no corpo-mente como uma contração muscular, como domínio físico, análogo à calma externa na metáfora da tempestade. O exemplo extremo, o terror, produz uma paralisia, um estado de congelamento, sem movimento. O domínio, não só mantém a integridade física em face da ameaça, como também domina o semblante. No abraço enternecido do Watsu, o domínio defensivo desaparece, e o sentimento que o mantém vem à consciência e pode finalmente ser expresso. Chega a hora, finalmente, da alma atormentada se descarregar, num impulso em direção à liberdade e à vida mais plena que se mantém sozinha.

 

         O Watsu na sombra do amor

        Nossa intuição pode nos dizer que estamos segurando uma pessoa em nossos braços, em cujo mundo o amor não entrou plenamente, uma pessoa que está na sombra do amor, sedento por isto e mesmo assim, com medo de deixa-lo entrar. Não existe fórmula melhor do que simplesmente convidar a Luz para tal sessão e então ”ficar do lado”, esperar com uma paciência de Deus, com o Amor de nosso Divino Pai-Mãe.

        Se eu me amo, posso amar o outro. Minha aceitação própria abre caminho para eu aceitar os outros. Para se relacionar sensivelmente com os medos de um parceiro requer que não sejamos violentos; isto é, devemos ser gentis, não forçando contra a resistência; brincalhão talvez, mas sempre complacente.