Medo de água -
Aquafobia - Hidrofobia é a aversão mórbida a líquidos.
Sua causa pode ser psiquiátrica ou virótica, quando então, extensiva e
impropriamente é sinônimo da raiva (doença), da qual é apenas um sintoma.
Hidrofobia: quando o medo
da água se torna doença. O medo da água é mais comum do que se imagina,
mas pode ser superado com a ajuda de
profissionais especializados como Mauricio Erreria
de Goes
Desde os tempos primórdios o homem cultiva um certo temor em relação à
água. O medo é explicado pelo fato de ser ele um animal terrestre e o
meio líquido um ambiente totalmente diferente do seu hábitat. Mas esse
medo pode ser interpretado de diferentes formas. Para uns, o sentimento
tem uma conotação de prudência ou salvaguarda, enquanto para outros é
encarado como um desafio a ser vencido.
Porém, há pessoas nas quais esse sentimento é exacerbado, tornando-se um
obstáculo ao convívio com a água. Em alguns casos, chega a ser
descontrolado, o que então caracteriza uma grave fobia, no caso da água,
uma hidrofobia.
“A fobia é o medo patológico. Quando em contato com o objeto fóbico, o
indivíduo entra em pânico e tem uma intensa crise de ansiedade, com
manifestações físicas como taquicardia, sudorese, vertigem, respiração
acelerada. Com isso, a tendência é a pessoa se esquivar desse objeto”,
comenta o psiquiatra e psicoterapeuta Geraldo Possendoro, especialista
em ansiedade e professor do curso de especialização em psicoterapia
cognitivo-comportamental da Universidade Federal de São Paulo - Unifesp.
Segundo ele, o medo é um sentimento inerente ao ser humano, que nasce
preparado para afastar-se de situações que não condizem com sua
natureza. “Trata-se da teoria do preparo, na qual o organismo seria
filogeneticamente – pela evolução natural – preparado para afastar-se de
estímulos perigosos”, afirma.
No início da vida, ainda na fase fetal, a familiaridade do ser humano
com o meio líquido é total em virtude do intenso contato com a água
durante a gestação. Após o nascimento, essa relação se desfaz e, com o
passar do tempo, a submersão na água passa a ser algo estranho ao
organismo.
“O homem não domina o meio aquático, por isso evita naturalmente a água,
mesmo não sendo um caso de fobia”, argumenta o professor da academia
Albatroz -SP, Lula Feijó, que desde 1989 desenvolve um programa com
aulas especiais de natação chamado Nadar Sem Medo, voltado a pessoas que
têm medo de água, fóbicas ou não.
Graduado pela Faculdade de Educação Física de Santo André – Fefisa/SP e
watsuterapeuta nível III, além de ex-nadador e campeão brasileiro pelo
Sport Club Corinthians Paulista, Feijó salienta que o medo é saudável
quando dosado, cumprindo a função de um alerta emocional que tem por
objetivo preservar o indivíduo. Já a fobia ele define como um medo
irracional, a ponto de a pessoa nem querer superá-lo. “Fobia é um medo
desproporcional à ameaça real. O medo de água é saudável, já o medo de
fotos de água é fobia”, compara.
RAÍZES DA FOBIA
Possendoro cita três teorias como as principais razões pelas quais uma
pessoa pode desenvolver fobia em relação à água ou outros estímulos. A
primeira é a teoria do preparo, na qual o ser humano nasce com um senso
natural de perigo – no caso o medo –, desperto em determinadas
situações. Esse senso de perigo seria hiperativo em algumas pessoas, o
que caracterizaria um medo excessivo, fora de controle no caso da fobia,
podendo ocorrer frente a um ou mais estímulos. A segunda, denominada
teoria do aprendizado, diz respeito a pais ansiosos, que por excesso de
zelo transmitiriam insegurança aos filhos. Estes, por conseqüência,
poderiam desenvolver um medo exacerbado ou até mesmo alguma fobia.
“Essas crianças tornam-se indivíduos frágeis, extremamente inseguros e
propensos a fobias”, relata o psiquiatra.
Mas no caso do medo em relação à água, a teoria com maior incidência é a
do trauma. São comuns os casos de pessoas que foram expostas a situações
de perigo no meio aquático, muitas delas com risco de morte, o que acaba
gerando um trauma. Por conseqüência, o indivíduo desenvolve um medo
excessivo ou até mesmo uma fobia.
Pessoas que passaram por esse tipo de situação acabam evitando banhar-se
em piscinas, no mar, mas há quem evite até mesmo o simples contato do
rosto com a água. “Existe gente que não molha o rosto no chuveiro porque
sente falta de ar, sente-se ansiosa”, comenta Feijó, dizendo que já
lidou com diferentes casos de fobia em seu programa Nadar Sem Medo.
Para ele, os graus de medo ou fobia são variados e individuais, de
acordo com o histórico da pessoa, de como ela enfrenta o problema e sua
disposição de superá-lo. Porém, existem pessoas que sofreram traumas e
nem mesmo se lembram do episódio. “Eu atendi o caso de uma senhora de 50
anos que estava aprendendo a nadar normalmente em uma piscina com mais
de um 1 metro de profundidade e quando a coloquei em uma rasa de 40 cm
ela entrou em pânico. Depois ela acabou se lembrando de que quase se
afogou na banheira quando criança”, conta o professor. “Às vezes, o
simples fato de o bebê escorregar das mãos da mãe e afundar na banheira
é suficiente para despertar fobia”, acrescenta.
O próprio Geraldo Possendoro foi vítima de um trauma envolvendo água na
infância, do qual também não se lembrava. “Meu pai conta que por volta
dos dois anos e meio me soltei da mão de minha mãe e me joguei na
piscina. Como não sabia nadar, afundei e engoli muita água. Se já havia
em mim um preparo genético para evitar a água, o fato confirmou o medo e
as estruturas cerebrais comprovaram que eu poderia morrer ao entrar na
água”, relata o psiquiatra.
O fato, conta o professor da Unifesp, causou uma fobia que lhe impedia
de submergir a cabeça na água. Mas o medo não o privava de entrar na
piscina, tanto que aos oito anos foi matriculado na academia para aulas
de natação, porém ele sempre limitava a água à altura do peito. “Morria
de vontade de dar um mergulho, mas não dava”, lembra.
TRATANDO O MEDO
De acordo com Possendoro, o cérebro humano é reprogramável, aberto a
experiências externas, o que torna possível a superação da fobia. No
entanto, essa reprogramação deve ser feita com o consentimento da
pessoa, de forma segura e tranqüila, para que não seja uma – ou mais uma
– experiência traumática. Um dos métodos mais utilizados no tratamento
de medos e fobias é o processo de dessensibilização sistemática, criado
na década de 1950 pelo psiquiatra sul-africano Joseph Wolpe.
Basicamente, o processo prevê a exposição da pessoa ao objeto
desencadeante da fobia de forma lenta e gradual. “Em um primeiro
momento, o indivíduo evita, mas, depois, a prática torna-se prazerosa e
ele passa a controlar a situação”, sustenta Possendoro, que em três
meses conseguiu vencer seu medo por meio do método.
Em muitos casos, diz o psicoterapeuta, a fobia, quando branda, pode ser
curada espontaneamente por meio da dessensibilização. Entretanto, ele
ressalta que, em casos mais graves, o tratamento adequado deve ser feito
por um psicólogo, ou até mesmo um psiquiatra, e complementado pelo
trabalho desenvolvido na piscina por um instrutor de natação
especializado. “Em hipótese alguma se deve tentar dessensibilizar uma
pessoa jogando-a na água à força”, alerta, explicando tratar-se de um
método totalmente primitivo e perigoso, pois só fortalecerá a fobia,
além de colocar a vida da pessoa em risco. “Essa atitude só demonstra a
falta de compreensão das pessoas do que é a fobia”, complementa.
A adaptação da pessoa fóbica na água deve acontecer sem nenhuma
imposição, da forma mais natural possível, pois só assim há condições do
medo ou fobia ser superado. “No começo, a pessoa só tomará um banho de
piscina. Às vezes fica só com os pés na água, sem nenhuma imposição”,
conta o professor Lula Feijó, explicando que esse trabalho é feito
normalmente em piscina rasa e água aquecida para tornar o meio líquido o
mais confortável e acolhedor possível. “A água aquecida relaxa e deixa a
pessoa mais calma”, argumenta.
Para ele, a maior dificuldade na superação do medo em relação à água
está na submersão da cabeça, que é o centro nervoso do corpo. O primeiro
passo, após ambientação inicial, é aprender a controlar a respiração e a
lidar com pressão para não permitir a entrada da água nos orifícios da
cabeça. O segundo o passo é aprender a boiar. “Controle da respiração e
flutuação são a essência da natação. Depois vem a propulsão –
deslocamento. Aí a pessoa já parte para a aula de natação propriamente
dita”, afirma.
Mas para de fato vencer o medo, a pessoa precisa tornar-se
auto-suficiente e aprender a sobreviver na água quando não houver
possibilidade de ficar em pé ou segurar-se em algum lugar. Essa
auto-suficiência, segundo Feijó, pode ser conquistada dominando três
aspectos. O primeiro é a flutuação, de frente e de costas. “A flutuação
de costas é a única forma de descanso na água, pois a pessoa consegue
boiar e manter o nariz e a boca fora da água”, ressalta.
O nado de sustentação na vertical é o segundo e consiste no palmeado
lateral com as mãos, aliado ao movimento de pernas estendidas, mantendo
a cabeça fora da água. E o terceiro aspecto é o popular nado
cachorrinho, que possibilita um deslocamento seguro, sem a necessidade
de afundar a cabeça na água. No entanto, Feijó explica que o método não
tem por objetivo fazer com que o medo desapareça por completo. “Apenas é
baixado o nível de prudência, pois o medo é um balizador das ações da
pessoa”, justifica.
MULHERES X FOBIA
Pesquisas apontam que as mulheres têm maior propensão a desenvolver
fobias que os homens. No caso do medo de água, a faixa etária com maior
incidência está entre os 40 e 60 anos e grande parte dessas mulheres
apresenta algum histórico traumático, de acordo com Feijó. “Quando a
pessoa deixa para aprender a nadar na fase adulta é porque está evitando
por algum motivo”, comenta. Outro motivo ressaltado pelo professor é que
há alguns anos o número de escolas de natação era pequeno em relação ao
atual, por isso o esporte era pouco acessível. “De algumas gerações para
cá, a prática do esporte se popularizou e ficou mais acessível. Por isso
o número de pessoas com medo de água está diminuindo. Mas sempre haverá
casos de trauma”.
A aposentada Nadir Cintra Brancalion, de 81 anos, confirma as
estatísticas sobre o medo e as mulheres. Ela ingressou recentemente no
curso Vencendo o Medo da Água promovido pelo Sesc São Paulo, no qual
mulheres na faixa etária a partir dos 40 anos são maioria entre os
participantes que buscam superar o temor. Dona Nadir quer vencer o medo
adquirido na adolescência, fruto de um trauma. Sócia do Clube de Regatas
Tietê, aos 16 anos, ela participava de uma aula de natação, na época
realizada no próprio rio Tietê, quando passou por apuros. “Naquele
tempo, a gente aprendia a nadar com o instrutor puxando uma corda presa
em nossa cintura. Só que na hora que ele puxou eu não estava pronta,
porque a corda ainda não estava presa. Então eu afundei e acabei pegando
medo”, relata a aposentada, que freqüenta a unidade Pompéia do Sesc São
Paulo.
Não um trauma, mas um medo difícil de superar foi o que levou ao mesmo
curso a dona de casa Márcia Vidal, de 42 anos. “Eu queria aprender a
nadar, mas sempre tive um pouquinho de medo de acontecer alguma coisa na
água e eu não conseguir me virar”, conta Márcia, que não entrava nem em
piscinas rasas. Ela diz que anos atrás tentou vencer o medo com aulas de
natação comuns, mas acabou desistindo. “Não havia o preparo que nós
temos aqui, essa adaptação nos mínimos detalhes”, comenta.
Segundo Fabiano Mastrodi, coordenador de cursos permanentes do Sesc
Pompéia, o curso Vencendo o Medo da Água existe há mais de cinco anos e
tem duração média de seis meses, variando de acordo com o desempenho do
aluno. “A procura pelo curso é grande, principalmente entre as mulheres.
O objetivo não é ensinar a pessoa a nadar, mas adaptá-la ao meio
aquático para que depois ela possa desfrutar benefícios de atividades
aquáticas como a natação ou a hidroginástica”, afirma.
Curso ajuda a vencer medo de água
Que atire a primeira pedra quem nunca
sentiu algum medo na vida. Muitas vezes, as pessoas perdem a chance de
desfrutar de atividades esportivas e culturais, de fazer algo que
gostariam por puro pavor. O medo de água, por exemplo, é mais comum do
que se imagina. Mas há tratamento e, inclusive, curso que ajuda o
hidrofóbico, como é chamado quem tem medo de ficar submerso na água, a
superar o sentimento negativo.
Pela primeira vez, o Serviço Social do Comércio (Sesc) de Bauru colocou
em sua programação o curso denominado “Adaptação ao meio líquido”, que é
direcionado a pessoas que têm medo de água, de se afogar. “Nossa
preocupação é dar um atenção especial para este público, pois temos
curso de natação para adultos iniciantes, mas percebemos que, por terem
medo da água, eles ficam constrangidos de ter aula com os outros,
principalmente o pessoal da terceira idade”, explica Flávia Cabral Lima
dos Santos, professora de educação física.
As aulas são dadas todas as terças e quintas-feiras e pessoas a partir
dos 13 anos podem participar do curso. “A gente percebeu que existem
pessoas que têm vontade de aprender a nadar, mas o medo impede. Também
notamos que alguns alunos de hidroginástica não conseguiam fazer todas
as atividades propostas por medo”, revela a professora.
A aposentada Maria Aparecida Lopes Rodrigues, 61 anos, é uma das
primeiras inscritas para o curso que começou nesta semana. Estimulada
por uma amiga, que também participa das aulas, além de perder o medo ela
quer aprender a nadar para aproveitar melhor as aulas de hidroginástica
e as viagens para a praia. “Tenho muito medo de água e, quando a
professora fica por perto, me sinto mais segura. Fazia aula de natação
na turma de iniciação, mas vi que não estava dando certo e abandonei”,
conta. “Como também faço hidroginástica, resolvi superar o medo e
aprender a nadar. Além disso, viajo para praia todo ano e nunca
aproveito o mar. Sei que não podemos ir longe, pois a água do mar é
perigosa, mas quando aprender a nadar vou estar mais confiante e vou
poder aproveitar mais”, acrescenta a aposentada.
De acordo com Pablo Henrique Lima, coordenador do setor aquático de uma
academia de Bauru, é comum pessoas com medo de água nas aulas de
natação. “Os adultos são maioria entre os que têm medo. Muitas vezes,
por vergonha, deixam as aulas e, em alguns casos, nem procuram ajuda”,
explica.
Apesar de não ter embasamento científico, Lima conta que pela sua
vivência de oito anos como professor de natação, acredita que, na fase
adulta, as mulheres são as que mais procuram cursos para enfrentar o
medo de água. “Talvez seja uma questão cultural, mas a mulher tem menos
vergonha que o homem e demonstra que tem medo de água”, afirma.
Na academia, as aulas de natação são oferecidas para bebês a partir de 6
meses. “O quanto antes a criança iniciar o trabalho de natação, melhor.
A partir dos 6 meses de idade o bebê já está com imunidade avançada para
começar a ter aulas”, explica.