Natação para a reabilitação - Conhecer os efeitos da natação sobre habilidades
funcionais de pacientes com lesão medular é o
objetivo do artigo "Efeitos da natação sobre a
independência funcional de pacientes com lesão
medular", de Maurício Real da Silva, da Rede de
Hospitais de Reabilitação Sarah Centro, em
Brasília, Ricardo Jacó de Oliveira, Universidade
Católica de Brasília (UCB), e Maria Inês
Conceição, da Universidade de Brasília (UnB).
Entre os benefícios relatados na literatura sobre o treinamento de atletas com lesão medular estão: melhora do consumo de oxigênio, ganho de capacidade aeróbica, redução do risco de doenças cardiovasculares e de infecções respiratórias, diminuição na incidência de complicações médicas, redução de hospitalizações, favorecimento da independência, melhora da auto-imagem, diminuição na probabilidade de distúrbios psicológicos e aumento da expectativa de vida.
"A natação para pessoas portadoras de deficiência tem sido definida como a capacidade do indivíduo de dominar o elemento água, deslocando-se de forma segura e independente, sob e sobre a água, utilizando-se de sua capacidade funcional residual e respeitando suas limitações", define o artigo. O estudo envolveu 16 pacientes portadores de lesão medular, divididos em dois grupos: experimental e controle.
Os grupos foram avaliados por meio da Medida de Independência Funcional,
antes e após o procedimento que consistiu em sessões de natação
realizadas duas vezes por semana durante quatro meses. "Os dois grupos
apresentaram mudanças nos cuidados com o corpo", garantem os
pesquisadores.
A atividade de natação trouxe benefícios motores sobre as habilidades
funcionais dos participantes. O novo paradigma reabilitador, explicam os
pesquisadores, há muito preconiza o esporte terapêutico, muito embora
observe-se, na prática, que a valorização da categoria profissional do
professor de educação física hospitalar vem surgindo apenas
embrionariamente no rol de profissionais que compõem uma equipe
interdisciplinar de reabilitação.
Uso do esporte na
reabilitação
Ensinar os portadores de deficiência a terem uma vida mais independente,
com ganhos para a auto-estima e a qualidade de vida, é meta do Centro de
Estudos do Esporte para Portadores de Deficiências (Cepode). Criado na
Faculdade de Educação Física da UFMG há 29 anos, pelo professor Pedro
Américo de Souza Sobrinho, o Cepode presta assistência gratuita a
pessoas com deficiência, usando o esporte e as atividades físicas no
processo de reabilitação.
O primeiro passo do atendimento, como explica o estagiário André Alves
Fernandes, de 22 anos, aluno do 5º período de educação física, é
trabalhar a motivação. "Os pacientes chegam muito abatidos e tristes.
Muitos têm vida sedentária. Entretanto, ao chegar ao centro e ver outros
pacientes em pior estado ou nas mesmas condições fazendo os exercícios,
sorrindo, interagindo entre si e obtendo resultados, ficam animados",
afirma o estudante, que atende pessoas com esclerose múltipla, paralisia
cerebral e derrame, entre outros casos.
A busca por melhorias no padrão locomotor e nos movimentos involuntários
acaba gerando também ganhos na parte psicológica. "É importante os
pacientes perceberem que não precisam viver de forma vegetativa",
garante André. "Vale ressaltar que não trabalhamos com fisioterapia.
Aplicamos conceitos da educação física."
Estagiária do centro há dois anos, Ana Flávia Leão Pereira, de 21,
também do 5º período, diz que o atendimento se torna ainda mais
importante já que faltam, no mercado, profissionais qualificados para
atuar com grupos especiais. "Penso em me especializar na área. No
entanto, também gostaria de lidar com mulheres grávidas", salienta. Uma
das coisas que mais satisfaz a estudante é ver a alegria dos pacientes
quando os resultados começam a aparecer.
Quando entrou no Cepode, Ana confessa que teve receio. "Achava que iria
lidar com um público muito triste, mas me enganei. Todos são alegres.
Chegam tristes, mas, à medida que vão melhorando, ficam mais
sorridentes", lembra. "Não esqueço o dia em que comentei com uma
paciente que ela estava mais bonita, com batom e toda arrumada. Ela
respondeu que estava assim graças ao nosso trabalho."
EXPERIÊNCIA
Trabalhar com pessoas que precisam de cuidados especiais exige
dedicação. "Lidar com o ser humano, principalmente quando ele está com
problemas, é muito delicado. Não podemos errar. A experiência aqui,
sempre com o acompanhamento do professor Pedro, é um aprendizado e tanto
para chegar ao mercado com mais qualificação", avalia Ana.
A vivência no atendimento do Cepode convenceu André de que é fundamental
ter uma experiência prática antes de sair da universidade. Ele afirma
que muito do que aprendeu no dia-a-dia não é abordado na literatura. Por
outro lado, à medida que vão surgindo pacientes com doenças que ele não
conhece, é preciso buscar informações para saber a melhor forma de
tratamento.
O professor Pedro Américo destaca que o esporte aplicado na reabilitação
permite melhoras durante anos a fio. "A pessoa está sempre aumentando
sua carga e intensidade, incluindo novos exercícios", ressalta.
Centro de Estudos do
Esporte para Portadores de Deficiência (Cepode) (31) 3499-2361
Revista Brasileira de Medicina do Esporte - vol.11 - nº 4 - Niterói -
jul./ago. 2005